O saber que vem do sentir

Os últimos meses têm sido tumultuados por aqui. Entre as viagens que fiz para ajudar minha mãe com as internações do meu pai, a perda dele, o trabalho que nunca parei e as tarefas domésticas, fiquei um bom tempo sem dar atenção ao jardim do prédio – que é de todos, mas que considero um pouco mais meu, já que sou eu quem geralmente interage com ele. Era muito menos uma questão de tempo e mais de ânimo que eu não estava sentindo de tirar um momento do meu dia para relaxar com as plantas. Mas os dias de sol fresquinho de outono andam muito convidativos e eu finalmente tenho voltado a descer mais vezes, levar um livro ou simplesmente me sentar na grama e ficar observando a dança dos insetos (menos frequentes e abundantes porque estamos no outono) ao redor das plantas. 

Numa dessas idas eu fiquei alguns minutos observando o voo ziguezagueado de uma mariposinha pequena, do tamanho dessas cuja lagartinha se alimenta dos cereais dentro dos armários de mantimento e que às vezes saem voando quando a gente abre uma porta. Enquanto observava ela voando eu pensava que, mesmo antes de pousar e eu olhar com atenção suas características, eu sabia que era uma mariposa. Voando ela parecia com um borrão preto que na verdade poderia ser qualquer outro inseto do mesmo tamanho e cor. Então como eu poderia saber que era realmente uma mariposa?

Foto de uma mariposa branca com a margem das asas douradas pousada sobre um fundo verde intenso, a folha da bananeira. Há nervuras em paralelo riscadas na diagonal, de um verde mais claro e amarelado que a cor da folha.
Uma mariposinha pousada na folha de uma bananeira ornamental

Quando eu era estudante, meu professor e orientador dizia que para além de conhecer as características taxonômicas dos insetos a gente tinha que conhecer o “jeitão” de cada um. Eu sempre me impressionava com a capacidade dele de bater o olho em insetos muito pequenos, às vezes de relance, e saber dizer o que era sem titubear. Eu achava que era uma habilidade adquirida depois de muito estudo, de tanto ler e correr chaves taxonômicas. Hoje eu entendo que quando ele nos dizia para olhar o jeitão dos insetos era um modo de nos fazer assimilar o conhecimento além do que está descrito no livro; era dar atenção à nossa intuição.

Muita gente costuma associar a intuição a algum poder sobrenatural, de envolvimento espiritual, ou com os sentimentos, algo longe da razão. Eu entendo e respeito essas visões, acredito que sejam formas válidas de compreender esse poder de perceber o que a gente não sabia que sabia. Pra mim a intuição tem mais a ver com as sensações, com a nossa forma de sentir o mundo, não a partir dos sentimentos mas dos sentidos. É um tipo de conhecimento muito sutil, às vezes inconsciente e definitivamente subjetivo. Mas como toda forma de conhecimento, ela é válida e, na minha opinião, deve ser levada em consideração tanto quanto o conhecimento lógico, racional e intelectual forjado no estudo. 

 Infelizmente, é comum que esse papo não agrade os cientistas das chamadas “ciências duras”. As ciências da natureza ainda tentam se afirmar como espaços de construção de um conhecimento neutro e concreto, onde não cabe muito a subjetividade. Digo infelizmente porque acredito que não seja possível ao ser humano construir conhecimento deixando sua humanidade de lado. E como não existem dois humanos iguais sobre a Terra, também não existe modo de compreender o mundo que não seja subjetivo – por mais teorias e leis gerais que existam. Com isso não quero dizer que as teorias e as leis da Ciência devem ser descartadas, de forma alguma – elas são muito úteis para explicar a estrutura de um fenômeno natural, como a atração gravitacional, a conservação das massas numa reação ou a evolução das espécies.

Mas se você se propuser a conhecer a história das pessoas que desenvolveram esses conhecimentos vai encontrar a intuição participando desse processo. Darwin, por exemplo, passou 5 anos navegando ao redor do mundo, se maravilhando com as florestas tropicais do Brasil, com os desertos de sal da Patagônia, as tartarugas gigantes de Galápagos e as condições geológicas e climáticas da costa africana. Ele lia muito também, estudava os teóricos do seu tempo. Mas foi o experimentar, o estar no mundo, que aguçou a sua percepção sobre a vida. E eu não estou falando uma coisa nova, é consenso entre os estudiosos da vida de Darwin que ele só chegou à teoria da evolução por seleção natural e à ideia de ancestralidade comum entre os seres vivos porque: 1. era curioso e um observador entusiasmado da natureza; 2. pôde viajar pelo mundo todo constatando a enorme biodiversidade que ele sustenta.

Eu ou o meu ex-orientador não somos o Darwin. Mas, como ele, somos seres humanos em contato com o mundo natural, experienciando esse mundo. Eu, ele, o Darwin, outros naturalistas (formais ou amadores), agricultores, pessoas que se conectam com o espaço natural, todos experimentamos a natureza com os nossos sentidos e aprendemos a partir dessas experiências. Eu sei que a mariposinha preta é uma mariposa antes mesmo dela pousar porque eu já observei o voo de centenas, talvez milhares de mariposas ao longo da minha vida. Nem sempre com atenção de pesquisadora, mas certamente com curiosidade. Assim como muitos observadores de pássaros os diferenciam pela som do seu canto, ainda que ele apresente variações. Ou quem planta reconhece as primeiras folhinhas de uma muda que mal germinou e ainda não tem a cara da planta adulta. 

O conhecimento que vem da experiência é tão válido quanto aquele que vem dos livros. E, o mais importante: é acessível a qualquer um. Basta que a gente cultive a atenção àquilo que a gente gosta e não duvide da nossa capacidade de saber com o coração.

Um cogumelo com o formato semelhante a uma flor rosa claro. Possui uma região central arredondada e abaulada (como o miolo de uma flor) e, ao redor, prolongamentos semelhantes à pétalas. Ele está sobre o solo escuro e cheio de serrapilheira (matéria orgânica que se espalha sobre o solo de florestas).
Flor ou fungo? Cogumelo do gênero Geastrum

Quem também escreve lindamente sobre a intuição no processo de descobertas naturalistas é a Carla, como nesse texto aqui: “Intuição num mundo desencantado”.

Eu também gosto muito de como a Samantha conta das experiências dela com a identificação das plantas que nascem nas frestinhas do seu quintal ou que ela encontra nos passeios com os filhos. Esse texto sobre “Sida rhombifolia – guanxuma” é um exemplo.

Se você quiser saber mais sobre a história por trás do livro A Origem das Espécies – a viagem do Darwin no Beagle e todo o longo processo posterior para a elaboração da teoria da Evolução – eu recomendo fortemente o podcast vinte mil léguas, da Revista Quatro Cinco Um. Foi uma das minhas melhores descobertas do ano passado!

Agora, se você prefere ler sobre a viagem de Darwin ao redor do mundo contada por ele mesmo, os diários de viagem dele foram publicados quando ele retornou à Inglaterra. Você pode comprar pelos links abaixo:

Viagem de um naturalista ao redor do mundo vol. 1

Viagem de um naturalista ao redor do mundo vol. 2

2 comentários em “O saber que vem do sentir

  1. Primeiro, eu queria te encontrar e te dar um abraço. Já tinha dito no twitter e digo novamente: meus sentimentos.

    Esse seu texto está lindo. Quando lemos os relatos de cientistas lá do século XVIII, XIX, início do século XX vemos como eles não tinham medo da subjetividade. Claro, entendo que quando fazemos Ciência (quero dizer, produzimos conhecimento, pesquisa) precisamos usar uma metodologia adequada e não deixar nossas crenças ou preconceitos imprimirem um viés na pesquisa. Por outro lado, falta sim um pouco de uma subjetividade saudável que ao meu ver até aproximaria mais gente para as Ciências. Afinal, a senhora que tem um monte de plantinha no quintal e sabe cuidar delas: ela conhece Botânica, do jeito dela.

    Beijinhos ❤ e agradeço a Deus por ter encontrado você nesse "grande infomar". Pessoas como você me fazem acreditar na internet saudável.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ah, Samantha, você é sempre tão carinhosa! Muito obrigada ❤
      Espero mesmo que um dia a gente possa se encontrar e trocar esse abraço. E espero que não demore muito!
      beijos

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