Sobre o amor e o morrer

Quando eu era criança bem pequena uma das minhas brincadeiras favoritas era fazer uma piscina de lama e colocar formigas para “nadar” nela. Eu observava as bichinhas se debatendo e comemorava quando alguma chegava do outro lado da poça, como se realmente ela estivesse nadando e não lutando pra sobreviver na água. Alguma sempre perecia no meio do caminho e, na minha cabeça infantil, era porque ela estava muito cansada para continuar. Eu ainda estava naquela idade em que não havia uma consciência muito bem formada sobre o que era a morte e esse não era um tema que permeava a vida das crianças quando eu era criança. Eu não sabia muito bem o que era morrer.


Quando a ideia de que a morte era o desaparecimento da vida finalmente chegou, nunca mais consegui encarar algo morrendo sem me afetar. O encarar aqui é literal: observar qualquer ser vivo morrendo é doloroso pra mim, não importa qual. Ainda assim eu matei tantos bichos ao longo da minha vida como bióloga, entre a consciência pesada e a compreensão de que havia um propósito naquela morte, me apegando muito a esse último pensamento pra tentar aliviar a sensação de que não devia fazer aquilo. Porém, observar a morte mesmo eu nunca consegui. Eu tinha colegas que gostavam de observar o inseto se debatendo dentro da câmara mortuária ou no vidro de álcool com curiosidade, e é uma curiosidade que eu até compreendo que exista e que dela tenha surgido tanta coisa importante. Mas pra mim era só cruel presenciar o minuto final daquele ser lutando para sobreviver e a vida se despedindo dele aos pouquinhos até finalmente ir embora de vez. É um mistério doloroso de se acompanhar.

Foto de uma exúsiva (exoesqueleto) de cigarra preso de cabeça para baixo a uma folha
Às vezes o que parece morte é, na verdade, uma nova oportunidade


O meu pai contava que, quando criança, gostava de caçar passarinho. Ele ia para a mata com o bodoque (ou estilingue) e era muito bom em dar o tiro certeiro. Mas ele dizia que, assim como eu, quando começou a ter consciência da morte passou a não conseguir mais matar e se arrependeu de todos os passarinhos que ele havia abatido na infância. E desde então ele passou a alimentá-los com frutas e farelos, e eu cresci nessas casas (que foram muitas ao longo da minha vida) cheias de passarinhos que viviam soltos mas que eram frequentadores assíduos dos comedouros, para a felicidade do meu pai. 


Na verdade, quem me ensinou a compaixão pelos outros seres vivos foi realmente o meu pai. Nem tanto por palavras, porque às vezes as palavras dele eram mais duras que os seus atos. Mas são várias as anedotas familiares que contam sobre como ele protegia os bichos mais inusitados da morte. Como a vez que achamos um ninho de rato em um quarto de entulho e minha mãe, morrendo de nojo, pediu para o meu pai dar um jeito “naquilo”. E o jeito que ele arrumou de dar foi levar a rata e os filhotinhos em uma caixa de papelão no porta-malas do carro até um terreno baldio bem longe de casa e deixar eles lá, livres. Ou do sapo que apareceu comendo a comida dos cachorros e que teve como fim ser adotado pelo meu pai e se tornar nosso sapo de estimação. Lagartixa eram nossas amigas, as aranhas também, e as baratas, apesar de não serem nossas amigas, só eram mortas pelas mãos da minha mãe. 


Papai não lidava bem com a morte e a gente sabia disso mesmo que esse nunca tenha sido assunto das nossas conversas em família. A gente sabia por tudo isso que fomos aprendendo sobre ele na sua relação com os outros seres. Assim como eu, ele não suportava ver a vida ir embora. A única vez em que ele verbalizou o medo de morrer foi exatamente duas semanas antes da sua morte, quando ele talvez tenha entendido que finalmente teria que encarar esse mistério de frente, e dessa vez do lugar do protagonista, não mais do espectador. E isso não sai da minha cabeça porque a espectadora fui eu. 

Me parece uma grande ironia da vida estarmos nós dois nesses papeis, de protagonista e coadjuvante/espectadora da morte, nós dois que sempre fugimos de encará-la ainda que acontecendo a outros seres que nem humanos são. Porém eu sinto que como eu aprendi a fugir da morte com o meu pai, ele é quem está me ensinando a lidar melhor com ela.  Continua sendo difícil para mim observar a morte substituindo a vida, um mistério que eu não me sinto impelida a tentar entender, mas que eu estou mais disposta a respeitar. E talvez aceitar que a morte não seja a interrupção dolorosa de um caminho, mas a cena final do espetáculo incrível que, infelizmente, precisa terminar.

Foto. Lorena criança (menina de 4 ou 5 anos, branca de cabelos escuros, presos e com franjinha na testa) usando blusa branca e bermuda rosa, posicionada de lado e olhando e sorrindo para a câmera. Ela está sobre um píer de madeira. Mais atrás, em um segundo plano, seu pai (homem branco, de bigode e óculos), camiseta azul listrada e bermuda branca, com sua irmã bebê no colo (criança branca, de aproximadamente 2 anos) com macacão rosa e sandalinhas brancas. Ao fundo, no terceiro plano, pessoas sentadas na beirada do píer. E ao fundo da foto o mar, alguns barcos de madeira e duas pedras ao fundo, uma à esquerda mais distante e outra à direita mais próxima. A luz do sol incide na paisagem à esquerda, a luminosidade é amarelada como um pôr do sol.
Foto de família. Só falta a mãe, que estava atrás das câmeras fazendo o nosso registro

Um comentário em “Sobre o amor e o morrer

  1. Pelo que assisto nesse espetáculo, acredito que esse papel protagonista/coadjuvante/espectador da morte é muito simbiótico e talvez a melhor representação da impermanência.

    Ora observo muitas coisas em vc morrendo, ora vejo ressuscitações. Tal qual essa história do sapo de estimação que ouvi você contar com um tom de voz orgulhoso do pai e um olhar melancólico pela lembrança. Não sei se o espetáculo realmente terminou quando, na verdade, você é o melhor fruto dessa história.

    Curtido por 1 pessoa

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