Para entender a natureza, evite emoções fortes

Eu sempre tive vontade de criar lagartas em ambiente controlado pra observar todas as fases da metamorfose e no final ver a borboleta ou mariposa saindo majestosamente do casulo. Parece uma coisa boba que qualquer entusiasta da entomologia já tentou fazer, mas não é o meu caso. Só tive essa oportunidade uma vez, em que eu e meus colegas de laboratório – não me lembro se eu já estava no mestrado ou ainda na graduação – coletamos umas lagartas do jasmineiro e criamos numa gaiola, observando as pupas se formarem e aguardando o gran finale quando as mariposas emergiriam lá de dentro. Mas, pra nossa surpresa, o que saiu de dentro das pupas foram moscas pretas e peludas, muito provavelmente da família Tachinidae.

Foto de uma lagarta preta com listas amarelas, cabeça e patas laranjas, se alimentando de uma folha verde claro.
Lagarta do jasmim em toda a sua simpatia gulosa

As lagartas estavam parasitadas com ovos de moscas e a gente não sabia. O que acontece nesses casos é que as larvas das moscas começam a consumir o corpo das lagartas por dentro mas ainda mantêm elas vivas até empuparem – quando as larvinhas finalmente terminam seu banquete e, rapidamente, empupam e viram moscas adultas. Qualquer semelhança com Alien, o 8º passageiro, não deve ser mera coincidência. Eu sempre digo que esses filmes de horror e ficção científica são uma versão macro do que acontece no microcosmos dos invertebrados.

Dá pena imaginar a lagarta sendo consumida por dentro aos poucos, enquanto as larvas de mosca fazem um banquete dos seus tecidos, mas sempre mantendo os órgãos vitais intactos pra que a lagarta permaneça viva até o momento de empupar – quando as moscas dão o golpe de misericórdia e terminam de comer ela toda. Parece até uma crueldade das moscas e a tendência é a gente tomar o partido da lagarta, tadinhas, tão vulneráveis e sofredoras. Enquanto eu escrevo este texto, ouço minha esposa conversando com as plantas dela, maldizendo também a mosca minadora que infestou o manjericão ou as cochonilhas que não deixam o Xanadu dela em paz. Uns indivíduos horríveis que atacam plantinhas indefesas!

É uma tendência humana atribuir moralidade a eventos da natureza que envolvam outras espécies que não a nossa, transferir para elas os valores que nós construímos socialmente mas aos quais elas não estão submetidas. Faz parte do olhar antropocêntrico que rege nossa relação com o mundo natural; nossa tendência de enxergar todos os outros seres a partir das nossas experiências.

Inclusive a moralidade da natureza era um assunto muito debatido antes do pensamento evolutivo ser hegemônico nas ciências naturais. Muitos naturalistas que viveram antes do séc. XX ficavam intrigados e alguns escreveram tratados sobre a aparente crueldade de certas espécies de seres vivos. Esses debates faziam sentido em um mundo que acreditava que a natureza deveria responder às leis divinas, incluindo aí a bondade e a harmonia. Afinal de contas, se Deus é bom e perfeito, como Ele pôde ter criado moscas e vespas que comem lagartas de dentro pra fora? Ou um fungo que transforma insetos em zumbis, mortos-vivos que perambulam por aí procurando o melhor lugar para o fungo crescer antes de aniquilar de vez o seu hospedeiro?

Foto de um besouro Curculionidae preso em um galho, parcialmente coberto de musgos. Das costas do besouro sai uma estrutura alongada, negra, que termina em um ápice arredondado e laranja, parecendo um fruto.
Besouro curculionídeo feito zumbi por um fungo do gênero Ophiocordyces

Argumentos divinos a parte, por mais hegemônico que o pensamento evolutivo seja para as ciências naturais – e, portanto, faça mais sentido pensar em vantagens adaptativas desse tipo de relação parasitária do que se ela é justa – ele não é conhecido ou não é compreendido o suficiente para ser o primeiro pensamento que brota na cabeça das pessoas no nosso cotidiano. O mais comum é a gente ainda olhar pra natureza com as nossas lentes embaçadas pelas emoções humanas e classificar os seres como bons ou maus, as relações entre eles como justas ou injustas e os seus comportamentos como certos ou errados. 

É por causa desse olhar antropocêntrico que muitos animais ganham a alcunha de “assassinos” – que, segundo o dicionário, é aquele que tira a vida de outro ser humano de forma torpe – como a orca, a “baleia assassina”. Ou, como vimos mais recentemente, as “vespas assassinas” que causaram uma comoção injustificada na internet. Pelo tom de pânico das manchetes parecia que as vespas apareceriam na porta das nossas casas portando uma arma letal, prontas para o massacre. Quantas pessoas clicaram nas manchetes para ler que essas vespas, apesar de causarem uma picada dolorosa quando se sentem ameaçadas, ganharam esse nome sensacionalista porque se alimentam de abelhas, e não de seres humanos? 

E enquanto não é comum que se saia por aí caçando orcas para evitar mortes, o mesmo não pode ser dito sobre as vespas… E como as pessoas não sabem muito bem o que é uma vespa – e menos ainda como é essa tal de vespa “assassina” – todos os insetos (e talvez até outros artrópodes) acabam sendo vítimas do medo e do desconhecimento. E eles, sim, são mortos sem dó pelos seres humanos; a espécie que inventou o assassinato.

—–

Stephen Jay Gould, que foi um paleontólogo renomado e um divulgador científico brilhante (e de quem eu sou muito fã, provavelmente ele vai aparecer aqui mais vezes) escreveu um artigo sobre a amoralidade da natureza dando exemplos de vespas parasitóides da família Ichneumonidae (que agem de forma parecida com as moscas Tachinidae), que foram alvo de muito pensamento controverso no século XIX. Você pode ler a versão original, em inglês, bem aqui.

Um artigo sobre como o pânico gerado pelas manchetes sensacionalistas sobre “vespas assassinas” pode ser extremamente prejudicial aos insetos e, consequentemente, aos seres humanos também, saiu na National Geograpich em Agosto e pode ser lido aqui.

E para saber porque o que prejudica os insetos também nos prejudica, você pode ler o meu texto sobre a extinção desses animais que foi publicado há duas semanas.


Este post faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, proposta pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa. A ideia é que a cada semana a gente escreva um texto inspirado em um dos naipes do tarô. O texto desta semana (e o último da blogagem coletiva) foi inspirado no naipe de copas:

O naipe de copas é um símbolo associado à água, emoções e assuntos do coração — hora de escrever sobre aquilo que preenche nossos cálices… quais histórias esse naipe te inspira a contar?

Dentro de uma janela retrô estilo Windows 95, com fundo azul, o ícone de copas.txt e o texto: Esse post faz parte do Estação Blogagem, que busca unir quem estava com saudades de blogar e dar o empurrãozinho que faltava para voltar. Tema de 22 a 28/11. No rodapé as arrobas @alinevalek e @umacertagabi

Um comentário em “Para entender a natureza, evite emoções fortes

  1. O bom é que esse texto surge justamente após à reflexão sobre a redução/desaparecimento de insetos.
    E o mais incrível é que, por esses dias, eu mesma estava julgando o meu sentimento em relação à mosca-minadora-safada-que-come-quem-eu-crio-tão-bem. É como se eu me apossasse de uma parte da natureza e não devesse deixá-la viva, tal como é. Ou, ainda, como se isso se tratasse mais dos meus cuidados de mãe-de-planta do que sobre o ciclo de tudo. E mais: o bom pra mim é ter um pé de manjericão intacto e não moscas se multiplicando. O ‘bom pra mim’. Eu, a própria deusa.
    Eqt isso a mosca minadora diz: aff, humana, te manca!
    Ainda tenho mto que aprender nessa relação com a natureza.

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