O lado bom do lado ruim

No primeiro semestre das Ciências Biológicas nós cursávamos uma disciplina que tinha como objetivo apresentar todas as possíveis áreas de atuação do biólogo, e era comum que o professor – que também era o coordenador do curso – nos perguntasse qual área nós pretendíamos escolher como ênfase da nossa formação. Eu nunca tive dúvidas de que queria estudar animais, já que foi só por causa deles que eu fiz vestibular para um curso que nem tava nos meus planos iniciais. Então prontamente, enfaticamente e muito romanticamente, eu respondi “zoologia!” quando ele fez a pergunta pra mim.

Segui estudando os animais – mais especificamente os insetos – durante toda a graduação e o mestrado, sem pensar muito em como eu aplicaria esse conhecimento fora da academia. Se você é cria de uma universidade federal nos áureos tempos dos governos progressistas que investiam na educação superior, talvez você também tenha estudado muito, emendando o mestrado na graduação e o doutorado no mestrado, sem pensar tanto no que você faria com todo aquele conhecimento uma vez que estivesse no “mundo real”. Talvez você tenha pensado que os tempos áureos seriam pra sempre, talvez você tenha mesmo permanecido na área acadêmica e hoje esteja lutando de dentro das universidades contra seu desmonte. Ou talvez você tenha feito como eu: cansado de estudar e resolvido deixar um doutorado pra outro momento, porque já era hora de ter a carteira assinada, férias remuneradas e 13º salário.

Foi assim que eu, entomóloga, caí no dito “mercado de trabalho” sem saber muito bem o que uma entomóloga faz que não seja estudar insetos, meu caso sendo um pouco mais crítico já que eu sou taxonomista de formação – que é a pessoa que descreve as espécies e dá aqueles nomes em latim que ninguém consegue pronunciar. Pesa o fato de eu ter feito toda a minha formação em uma universidade do interior e ter decidido morar na capital para trabalhar. Ou seja, não sabia nem pra que lado ir e nem por onde começar a procurar o emprego que ia assinar a minha CLT.

Num completo golpe de sorte, do tipo estar no lugar certo na hora certa com o currículo na bolsa, eu fui contratada para a equipe de entomologia de uma empresa de consultoria ambiental que prestava serviço para várias mineradoras que atuavam no estado. Meu primeiro emprego formal como bióloga! Me parecia muito promissor já que eu trabalharia com a área exata em que me formei e o salário era mais alto do que eu imaginava que seria o meu primeiro salário. Parecia realmente tudo muito bom. Eu só não contava com ela: a minha consciência. 

Foto de uma borboleta que mimetiza uma folha seca. Vê se a mão da pessoa (branca) segurando a borboleta pelo abdomen.
Uma borboleta tentando te enganar e passar despercebida

Não vou entrar no mérito de todos os problemas e ilegalidades que as mineradoras cometem no nosso país, porque independente de certo ou errado, legal ou não, eu descobri que ver uma região de vegetação ser progressivamente substituída por valas, cavas, buracos e barrancos estéreis era algo que me tirava o sono e me deprimia demais. No final das contas, foram só 2 anos nesse primeiro emprego que parecia dos sonhos, onde eu ganhei um tanto bom de dinheiro e perdi um tanto maior ainda de saúde mental.

Porém existiam coisas boas no trabalho e na verdade este texto era para honrar justamente todas as boas experiências que eu vivi e vou guardar comigo pra sempre. Especialmente as pessoas que eu conheci, com quem trabalhei ou mesmo as que só cruzaram meu caminho rapidamente.

Como o moço que tinha um canavial no quintal, na beira de uma estrada de terra que a gente usava para acessar um dos pontos de coleta, e nos fornecia garapa moída na hora pras nossas armadilhas de borboleta sempre que o suco industrializado que a gente trazia da cidade acabava. Ou todos os agricultores que deixavam a gente parar a camionete próxima da sede do seu pedaço de terra – porque ali muitas vezes era o mais perto do ponto de coleta que conseguíamos chegar com o carro e tínhamos que seguir a pé – e na volta nos davam água se a nossa tivesse acabado. 

E teve a senhora do requeijão.

Um dos nossos pontos de coleta de borboletas era numa antiga fazenda que havia sido comprada pela mineradora para transformar em área de preservação .A fazenda já havia sido abandonada há algum tempo, então a mata realmente tomava conta inclusive de partes que antes eram construídas. Mas algumas estradas de terra que a cortavam permaneciam abertas e eram utilizadas pela população de um vilarejo minúsculo que havia do lado. Um vilarejo com ares de quilombo – a única pessoa branca que vimos lá era o dono da vendinha (que era só uma). 

Em um certo dia, eu e minha colega estávamos coletando na beira da estrada de terra quando passa uma senhora montada num cavalo. Uma senhora negra, muito velha – ou pelo menos aparentava ser. Apeou do cavalo e veio assuntar com a gente sobre o que estávamos fazendo. Explicamos que prestávamos um trabalho para a mineradora e estávamos ali coletando borboletas. Ela ficou curiosa, nos fez várias perguntas, quis entender o que a gente fazia e pareceu achar as respostas muito interessantes. E no final do papo nos convidou para ir até a casa dela tomar café. Insistiu. Como eu moro em Minas Gerais há tempo o suficiente para saber que não aceitar um convite para um cafezinho é a maior desfeita que você pode fazer a um mineiro, combinamos que iríamos após o trabalho. E fomos mesmo. 

A casa da senhora era bem humilde, chão de terra batida, mas ela tinha um terreno extenso, com várias criações: vacas, porcos, galinhas e até cabra. Na casa não tinha luz elétrica, a geladeira era ligada por um gerador, o fogão era de lenha. O cafezinho era bom, café da roça, docinho e cheiroso. Proseamos mais. Mas infelizmente nós tínhamos que seguir viagem, voltar para a sede da empresa e continuar nosso trabalho.

Na hora de ir embora, a senhora foi até a geladeira e tirou dois requeijões em barra feitos por ela, e nos deu de presente. Deu biscoito caseiro também. A gente queria pagar pelos requeijões mas ela insistiu que não, que era presente. Um requeijão moreno, provavelmente meio defumado da fumaça do fogão de lenha. Um dos mais gostosos que eu já comi – com gostinho de hospitalidade mineira.

Foto de um pôr do sol no fim de tarde, com um céu bem alaranjado, em que se vê várias montanhas no horizonte.
Pôr do sol em um dos pontos de coleta: uma coisa bonita que eu também trago comigo

Esta postagem faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, que foi proposta pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa. A ideia é que, a cada semana, a gente escreva um texto inspirado por um dos naipes do tarô. O naipe desta semana é o ouros, que se relaciona com o elemento terra e todas as coisas materiais:

Terra, trabalho, dinheiro, produtividade, o suor do rosto: cabe muita coisa dentro do baú do naipe de outros. O que acontece se você jogar essa riqueza na escrita?

Um comentário em “O lado bom do lado ruim

  1. Por falar em minúcia, o abraço que o mineiro dá com a comida e com uma prosa é das maiores significâncias que me faz apaixonar por estas gerais de minas.
    Que bom você ter sido preenchida por esse lado bom, mesmo quando o seu ofício agredia a sua consciência.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s