O desaparecimento dos insetos – e porque é importante falar sobre isso

Quando eu tinha uns 8 anos de idade fui picada por um marimbondo. Na verdade, eu fui debruçar sobre o muro do quintal para bater papo com a vizinha e não vi que um marimbondo moribundo estava por ali – acabei apoiando o braço sobre ele e levando a ferroada. 

Até então nossa relação – minha e dos marimbondos – sempre tinha sido pacífica apesar da convivência constante, pois os quatro cantos do teto da varanda da minha casa tinham caixas (como a gente chama um tipo de ninho de algumas espécies de himenópteros sociais). Eles ficavam voando lá em cima e eu brincando aqui embaixo. A mesma coisa acontecia no terraço de casa, cheio de casinhas de vespas oleiras que a gente aprendia a respeitar e deixar quietas. Ou no nosso jardim e a sua infinidade de formigas diferentes, soldadinhos (homópteros, que eu e minha irmã chamávamos de “viuvinhas”) presos nas árvores, borboletas sobre as flores e grilos pulando no gramado. 

Foto de uma abelha do gênero Trigona (abelha que possui o corpo todo preto e sem pêlos) pousada sobre uma flor amarela de serralha
Uma abelha do gênero Trigona passeando na horta

Eu nasci nos anos 80 e fui uma criança que prestava atenção nos insetos, mas se você nasceu antes dos anos 2000, pode se lembrar de que a presença deles era muito mais constante na nossa vida no passado. Era raro que uma viagem de carro não terminasse com o parabrisas todo manchado com os coitados que tinham o azar de atravessar o nosso caminho na estrada. Ou um dia quente e chuvoso de verão que as lâmpadas não fossem disputadas por insetos de todos os tipos e tamanhos. Se hoje nós não vemos a mesma diversidade que há 15 ou 20 anos é porque os insetos estão realmente desaparecendo – e esse fenômeno está sendo observado e estudado no mundo todo.

A chamada “sexta grande extinção” – que tem como causa a influência da presença humana no planeta e está em curso há alguns milhares de anos, mas vem se intensificando nos últimos séculos pelo meio de produção capitalista – afeta todos os grupos de seres vivos, inclusive os insetos. Em 2017, um estudo alemão alertou para uma perda de até 76% da biomassa de insetos voadores no país nos últimos 27 anos. Outro estudo, realizado em florestas tropicais de Porto Rico, aponta para até 98% da biomassa de insetos perdida nos últimos 36 anos. Nos Estados Unidos, a população de borboletas-monarca diminui cerca de 90% nos últimos 20 anos. Na Amazônia brasileira, a população de besouros escaravelhos caiu para um 1/3 do total após 2016 (uma observação: existem menos estudos realizados nos países em desenvolvimento do hemisfério sul, portanto temos menos informações sobre esses lugares – incluindo o Brasil). Vários artigos foram publicados nos últimos anos relatando dados semelhantes ao redor do mundo: a abundância (quantidade de indivíduos por espécie em um determinado local) e a diversidade (número de espécies diferentes) de insetos estão em declínio – e isso está acontecendo de forma rápida. 

As causas desse fenômeno ainda não são totalmente conhecidas, apesar dos cientistas discutirem que o aquecimento global, a perda de habitats para a agricultura e o uso indiscriminado de agrotóxicos são alguns dos motivos mais prováveis. O caso do declínio das populações de abelha talvez seja o exemplo mais conhecido pela importância econômica desses insetos na polinização de espécies vegetais usadas na alimentação humana. Mas outros himenópteros, além de borboletas, mariposas, besouros (entre eles vagalumes, joaninhas e escaravelhos) e as principais ordens de insetos aquáticos (como as libélulas) estão entre os grupos em que foram documentadas maiores perdas populacionais, entre o final do século passado e o início deste.

Talvez esses números sejam alarmantes o suficiente pra que você entenda o tamanho do problema, mas é importante lembrar: os insetos são os mais abundantes e diversos entre todos os grupos de seres vivos do planeta Terra, e estão presentes na maioria dos ecossistemas (o ecossistema marinho sendo a única exceção). São conhecidas, atualmente, quase 1 milhão de espécies diferentes de insetos mas os entomólogos acreditam que esse número pode ser muito maior. Os insetos se relacionam com quase todos os outros seres vivos nos ambientes em que se encontram, direta ou indiretamente, sendo fonte de alimento, realizando controle biológico, reciclando nutrientes, dispersando pólen, sementes e esporos, produzindo substâncias que serão utilizadas por outros organismos, entre tantas outras atividades. Uma diminuição na população desses animais impacta diretamente não apenas os outros seres vivos do lugar mas também os componentes abióticos do ecossistema, como a composição e a estrutura dos solos. 

Alguns desses impactos já estão sendo observados e documentados. Ictiólogos que estudam espécies de peixes de água doce, por exemplo, já observam a diminuição da população de peixes que se alimentam de larvas de insetos. Metade dos pássaros insetívoros que viviam em áreas cultiváveis da Europa desapareceram nos últimos 30 anos. A perda da biodiversidade leva também ao aumento das populações de insetos generalistas, como moscas domésticas, baratas e pernilongos, que passam a se proliferar e ocupar os nichos (ou os papéis ecológicos) das espécies que desapareceram da região – o que influencia diretamente a nossa saúde, já que esses animais podem ser vetores de doenças. É uma cadeia de impactos negativos que modifica as relações entre todas as espécies; inclusive a espécie humana.

Eu comecei a trabalhar com insetos no final de 2005, ainda na graduação em Ciências Biológicas. De lá pra cá, tive a oportunidade de coletar e identificar insetos em diversas regiões do estado de Minas Gerais. Eu me habituei a procurar por eles nos ambientes, meus olhos já com a habilidade de escanear a vegetação e encontrá-los, por menores que sejam. E eu passei a observar a sua progressiva escassez ao meu redor já há algum tempo, antes de ler qualquer estudo sobre o assunto.

Foto de uma mão suspensa contra um céu azul. Um bicho-pau passei por cima do dedão da mão fechada.
Das belezas que a gente encontra pelo caminho

Apesar de acreditar que a validação pelos pares é importante e apoiar as produções científicas porque sem elas não há como justificar a necessidade de políticas públicas, por exemplo, a gente não precisa esperar um cientista constatar ou um artigo ser publicado para validar o que os nossos olhos são capazes de enxergar. Basta ir ao seu jardim, caso você tenha um, ou a uma praça ou parque, ou qualquer ambiente com vegetação mais presente, e procurar pelos insetos. Observe se consegue encontrá-los em abundância e diversidade. Observe os postes de luz à noite, antes tão cheios insetos voando ao redor da lâmpada. Ou os canteiros de flores ao meio-dia, horário que as borboletas estão mais ativas. Perceba que talvez você também não os veja mais como antigamente. 

E por mais que esses pequenos animais passem muitas vezes despercebidos, e outras tantas vezes sejam pouco queridos, o seu desaparecimento total pode levar ao que alguns especialistas estão chamando de “apocalipse dos insetos”: um mundo muito diferente daquele que conhecemos atualmente, onde nós provavelmente teríamos mais dificuldade em sobreviver.

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Se você quiser complementar a leitura, aqui estão algumas das referências de onde tirei os dados do texto:

Matéria sobre a diminuição dos besouros escarabeídeos na Amazônia

Artigo publicado na revista Piauí sobre a extinção dos insetos

Um dos estudos mais completos e atualizados sobre esse assunto que foi publicado na revista Biological Conservation (em inglês)


Esta postagem faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, proposta pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa. A ideia é que, a cada semana, a gente escreva um texto inspirado em um dos naipes do tarô. O desta semana é o naipe de espadas, que está relacionado ao elemento ar, o elemento da razão:

O naipe de espadas diz sobre algo que acontece no plano mental: a racionalidade, a ideologia, a verdade. Mas também fala sobre os problemas que só existem na nossa cabeça, que tanto nos pressionam e criam grandes conflitos internos. Que tal falarmos mais sobre isso?

Imagem de fundo azul que simula uma caixa de diálogo de uma versão antiga do Windows, em que se lê: "Esse post faz parte da Estação Blogagem. que bisca unir quem estava com saudades de blogar e dar o empurrãozinho que faltava para voltar".

2 comentários em “O desaparecimento dos insetos – e porque é importante falar sobre isso

  1. Como sempre muito bom.
    Sou bastante novo, nascido em 2001. Lembro que na minha infância se falava muito das tanajuras e outros insetos que apareciam muito em época de chuva, tinha quem comesse tanajura frita até. Faz anos que não ouço falar neles.

    Curtido por 1 pessoa

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