Crônica de quarentena

Belo Horizonte, Abril de 2020

O que tem me feito mais feliz nesses dias de isolamento social é descer para o jardim, o micro jardim deste prédio, pra tomar sol e observar as plantas e os animais. Sinto um prazer tão grande em sentar ao lado da minha laranjeira – minha porque fui eu que a plantei – e vê-la crescendo forte mesmo que abrigue uma diversidade enorme de seres vivos em seu corpo. Os pulgões que enchiam seus ramos jovens, uma quantidade absurda como nunca tinha visto, e as formigas que os pastoreavam já deram lugar a novas colonizações. Agora quem anda por lá sugando a seiva elaborada são as cigarrinhas (bichinhas da família Cicadellidae). Não é uma grande população, nada que vá afetar a saúde da planta (se os pulgões não acabaram com a saúde dela, acho que nada mais acaba), estão ali buscando seu alimento e vivendo sua vidinha de cicadelídeos. E eu apenas observo, sem interferir, porque acredito que eles todos têm direito a conviver e viver seus ciclos sem a interferência de uma espécie com mais poder de fogo (eu).

Outras que amo observar são as formigas, minhas grandes amigas de infância. Ao redor da laranjeira já identifiquei três espécies diferentes, mas como não entendo nada de espécies de formigas eu não sei seus nomes. Não tem problema, eu as conheço assim mesmo. Conheço de observar. Alguns dias atrás vi uma delas carregando o corpo tombado de uma companheira da mesma espécie, levando o cadáver não sei para onde, ao longo do gramado. Me admirei; foi a primeira vez que vi uma carregando um defunto seu. Fiquei imaginando para onde estava indo e qual seria o destino da finada formiga que ela carregava. Foi inevitável fazer um paralelo com o que temos vivido aqui no mundo dos humanos, do qual a formiga não sabe de muita coisa. Temos carregado nossos defuntos mais frequentemente nesses últimos 40 dias… Assim como a formiguinha, vamos um ou dois solitários na despedida ao que partiu, porque isso é tudo o que o vírus nos permite… E a formiguinha, sem saber, virou uma metáfora andante.

Vespas e moscas são muito comuns no jardim, especialmente próximas à laranjeira. Também os percevejos (Alydidae? ainda não sei) do camarãozinho amarelo. Até mirídeos eu já vi, porém eles são raros… Não sei porque aparecem tão pouco, eu ficaria feliz de ver carinhas conhecidas frequentando o mesmo espaço que eu. Borboletas aparecem bem de vez em quando, mas é assim mesmo. Estamos no outono, poucas flores, tempo mais fresco… As borboletas gostam de calor e aparecem mais num jardim mais florido que o nosso. Porém antes de ontem vi um filhotinho: uma lagartinha mede-palmos tão minúscula e verdinha, provavelmente em seus primeiros instares. Em algum momento ela será uma mariposinha (Geometridae) e eu espero poder observá-la.

Descrição: Foto de duas pequenas conchas brancas, de eixo helicoidal, uma maior e uma menor, sobre um fundo marrom irregular
Pequenos tesouros encontrados no jardim

Um casal de rolinhas fez um ninho na arvorezinha da entrada do prédio, algo que eu acredito que não aconteceria em tempos pré pandemia e isolamento. Com a diminuição do movimento de entrada e saída de pessoas, elas devem ter se sentido mais seguras em construir ali. Infelizmente eu já as assustei duas vezes na minha ida ao jardim, o que me deixa triste. Preciso me lembrar de ir mais devagar, desacelerar o passo, me abaixar… me camuflar com o ambiente para que elas se sintam seguras, para que sintam que eu faço parte da natureza tanto quanto elas. Não sou uma ameaça. Não deveria ser, pelo menos. Sou só mais um ser vivente que aproveita o jardim para obter um pouquinho de vida com sentido, assim como elas.

Quem me vê de fora, nesses momentos de contemplação da vida do jardim, deve pensar que eu sou apenas uma mulher esquisita que encara a grama por minutos sem fim. Pernas cruzadas, mão no queixo, olhos semicerrados, imóvel. “Olha a doida”, imagino as pessoas pensando. Já recebi olhares, não penso isso à toa, sabe. Já percebi que as pessoas não entendem o meu observar. Mas é dele que vem a minha integração com aquilo que eu amo. Passei apressada por esses jardins tantos dias seguidos, nos últimos dois anos. Exatamente como todas as outras pessoas continuam passando. Enquanto isso, eu sentia sede de natureza, queria ir para parques, para o interior, sem saber que eu podia me alimentar da vida que existia a alguns metros de mim. Precisou um vírus mortal estar no ar para que eu parasse e contemplasse a vida que se sucedia bem aqui, debaixo dos meus olhos.



Essa é a postagem de estreia do blog e já está participando da blogagem coletiva Estação Blogagem, criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa, que propuseram que a cada semana a gente escreva um texto baseado em um dos naipes do tarô. O desta semana é o naipe de paus e eu achei bem auspicioso iniciar um blog sobre observações e reflexões na semana do elemento que simboliza a criatividade:

O naipe de paus está ligado diretamente à energia do fogo e basta pensar no significado desse elemento para a humanidade — nós não vivemos sem ele. É um naipe impulsionador, dinâmico e que fala da nossa criatividade. O que te sustenta? O que te estimula?

7 comentários em “Crônica de quarentena

  1. Que texto lindo! Uma das coisas que tem acalmado minha mente e meu coração é mexer nas plantas de apartamento aqui de casa. Uma horta que vinga devagarinho, apesar dos gatos, marantas e perômia e uma samambaia que quase morreu mas tá dando brotinhos novos. Todo dia observo cada milímetro novo e me deixo levar pelo encantamento. Terra para aterrar meus anseios.

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    1. Aqui também temos muitas plantas dentro de casa, quem cuida a maior parte do tempo é a minha esposa, mas eu também sinto uma paz muito grande em conviver com elas. Acho que essa proximidade com as plantas tem sido um saldo positivo pra muita gente nesse momento de recolhimento que nós estamos passando, né? E que bom que é assim!
      Brigada pelo seu comentário. ❤

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  2. lorena, que delícia de texto! e que linda a sua relação com a natureza. se mais pessoas pensassem e agissem como você, com certeza teríamos um mundo mais respeitoso e delicado com todos os seres. ❤

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